quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Relato do encontro “Texto e imagem nas narrativas - os modos de leitura das imagens”


No dia 29 de outubro, aconteceu o último encontro do ano, do Grupo de Pesquisa em Narrativas Midiáticas (NAMI/Uniso/CNPq). A palestrante convidada, Profa. Dra. Luciana Pagliarini, integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, da Universidade de Sorocaba.
A Profa. Dra. Luciana, que lidera o Grupo de Pesquisa em Imagens Midiáticas (GPIM), também pertencente à PPGCC - Uniso iniciou sua fala explicando que o tema de sua apresentação estava relacionado a sua tese de doutorado.
Ao se deparar com a dificuldade com que os professores da escola em que foi coordenadora possuíam em trabalhar com livros didáticos do ensino fundamental, Luciana transformou a inquietação profissional em pesquisa acadêmica. Relacionando em sua pesquisa palavra e imagem, buscou por meio das categorias peirceanas, juntamente com os fundamentos de Lucia Santaella, analisar as narrativas e imagens inseridas nos livros infantis.
Elucidando sobre a teoria da Semiótica de Charles Sanders Peirce (1839-1914), a palestrante esclareceu que na teoria peirceana existem três categorias distintas: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.
A primeiridade está diretamente relacionada às sensações, ao momento contemplativo, à qualidade (cores, cheiro, textura etc.) do que é observado.
A secundidade está relacionada à observação pela qual o olhar distingue os existentes e as coisas passam a ter nomes, o sujeito passa a discriminar o que observa.
Na terceiridade é por meio do raciocínio que o sujeito passa a interpretar o que observa, esse olhar está embebido de ideologia e de consciência.
A professora ressalta que as três categorias não existem de maneira separada, ou seja, não há uma categoria pura.
Para exemplificar cada categoria, Luciana utilizou poemas dos heterônimos de Fernando Pessoa. Assim, para elucidar sobre a terceiridade:

“Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses” [...]
Ricardo Reis
                                    
O uso dos poemas remeteu aos presentes a problemática da abordagem escolar, que muitas vezes pede aos alunos que interpretem e expliquem essas narrativas. Esse tipo de abordagem impede que o aluno viva a experiência do poema, que não possui uma interpretação que possa ser considerada “certa” ou “errada”.
Sobre as relações semânticas das palavras e imagens nos livros infantis, Luciana aponta que elas podem interagir de três maneiras:
Na redundância a imagem condiz com o texto. Por exemplo, se o texto diz: “Era uma vez uma garotinha de capa vermelha”, as imagens reproduzem a mesma narrativa.
Quando há complementariedade, o texto e a imagem possuem relação, entretanto outros elementos podem surgir.
Quando há à discrepância o texto não condiz com as imagens e vice-versa.
Por meio da leitura do livro A bota e a enxada: certos contos italianos, dos autores Katia Canton e Luiz Paulo Baravelli, a palestrante convidou a todos a imaginar as cenas descritas.
Após a leitura, as ilustrações do livro foram apresentadas. Trata-se de uma linha com desenhos abstratos que se encontra de forma contínua em todas as páginas do livro.
 A docente compartilhou como foi a experiência ao ler a obra para crianças do ensino fundamental. Ao perguntar o que poderia ser a linha abstrata, uma das alunas respondeu: “É um caminho, né professora!”.
Durante o encontro aconteceu o lançamento de dois livros. O primeiro, Mídia, narrativa e estilo (literatura, cinema, videoclipe e telejornal), dos autores João Paulo Hergesel (Mestre formado pelo PPGCC – Uniso) e Míriam Cristina Carlos Silva (docente do PPGCC – Uniso). A obra é uma compilação de estudos sobre narrativas produzidas em diferentes mídias e com seus estilos particulares.
O segundo, Comunicação, arte e culturas: (re) leituras e (re) flexões, de autoria de Míriam Cristina Carlos Silva e Paulo Celso da Silva. Os textos que constituem a obra foram elaborados pelos docentes do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, enquanto ministravam conjuntamente a disciplina Comunicação, cultura e arte. O livro aborda conceitos desenvolvidos por pensadores como Ciro Marcondes Filho, Vilém Flusser, Michel Serres, Philadelpho Menezes, Oswald de Andrade, entre outros.
Encerramos o ano de 2018 carregando as narrativas que nos afetaram, as experiências que nos transformaram e as pontes que permitiram as travessias (cada um a sua maneira) sobre os abismos que nos circundam. 

Por Vanessa Heidemann

Relato do Encontro Cinepós: Um Conto Chinês


No dia 26 de outubro aconteceu junto aos alunos da Universidade da Terceira Idade (Uniso) o encontro do projeto Cinepós.

Com o objetivo de transpor os muros acadêmicos, proporcionando a divulgação científica desenvolvida na Universidade de Sorocaba, o projeto é uma iniciativa da Profa. Dra. Maria Ogécia Drigo, Profa. Dra. Míriam Cristina Carlos Silva e Prof. Dr. José Rodrigo Fontanari.
O encontro foi mediado pela Profa. Dra. Míriam Cristina Carlos Silva, que iniciou sua fala explicando a proposta do projeto, instigando uma sala cheia de olhares atentos sobre as questões e relações entre as narrativas fílmicas e a comunicação.
Explicando o conceito de comunicação como processo de transformação (Ciro Marcondes Filho) e como processo que envolve afeto e vínculo (Norval Baitello Junior), Míriam sugeriu aos presentes que observassem três questões na narrativa fílmica: a comunicação, a solidão e o vínculo.
O público presente no Campus Seminário teve a oportunidade de assistir a Um Conto Chinês, produção argentina de 2011, que narra a vida do solitário e ranzinza vendedor de ferramentas, parafusos e pregos, Roberto (Ricardo Darín).
Roberto segue com sua vida e manias até o dia em que vê um jovem chinês ser jogado para fora de um táxi. Mesmo contrariado decide auxiliar o rapaz que desesperado desata a falar em chinês.

Cena do encontro entre os personagens Jun e Roberto
Não compreendendo absolutamente nada, Roberto decide levar Jun (Ignacio Huanga) até a delegacia. Após se desentender com o guarda leva o rapaz para sua casa, o que promove uma série de transformações em seu cotidiano e na vida de ambos.
O encontro inesperado com o estrangeiro obriga Roberto, que vive em função do passado, a olhar para o mundo de maneira diferente.
Apesar da barreira gerada pelas culturas diferentes, os personagens afetam a vida um do outro. A partir do encontro surge, para ambos os personagens, a chance de um recomeço.
Após o término do filme aconteceu uma roda de conversa sobre as situações que mais chamaram a atenção do público.
A professora Míriam apontou que as narrativas fílmicas podem auxiliar a olhar para o “real” com outros olhos, possibilitando um olhar mais ampliado e mais crítico.
Respondendo sobre as questões envolvendo a comunicação, a solidão e o vínculo os participantes do encontro fizeram comparações entre as narrativas do filme e as narrativas de suas vidas. Como afirmou Míriam, o fato de tantas narrativas surgirem entre os presentes sugere que a produção cinematográfica Um Conto Chinês afetou e comunicou. Pois a narrativa quando comunica, vincula e faz as memórias voltarem.
Em 2019, o Cinepós promoverá novos encontros buscando o diálogo entre a comunidade e a universidade. 


Por Vanessa Heidemann