quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Relato do Cinepós: “Representações Poéticas da Morte nas Narrativas Midiáticas: a novela Velho Chico”

Por Vanessa Heidemann

"Assim, as narrativas poéticas podem transformar seu público. Mesmo quando ocorre o incômodo perante uma cena, isso significa que, de alguma maneira, a narrativa afetou o telespectador".    

Aconteceu na sexta feira, dia 24 de agosto de 2018, mais um encontro do Cinepós na Universidade de Sorocaba (Uniso).
O projeto idealizado pelos docentes do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, Profa. Dra. Maria Ogécia Drigo, Profa. Dra. Míriam Cristina Carlos Silva e Prof. Dr. José Rodrigo Paulino Fontanari busca construir uma relação com a comunidade, divulgando pesquisas para além dos muros acadêmicos.
O encontro contou com a participação da Profa. Dra. Míriam Cristina Carlos Silva e da aluna do curso de Jornalismo da Universidade de Sorocaba, Bruna Emy Camargo.
Intitulado: “Representações Poéticas da Morte nas Narrativas Midiáticas: a novela Velho Chico”, o encontro foi um retorno à comunidade sobre a pesquisa realizada durante a Iniciação Cientifica de Bruna, que contou com a orientação da Profa. Dra. Míriam.



Exibida em 2016, a novela Velho Chico foi considerada um marco na teledramaturgia da televisão brasileira. Apesar do ibope demonstrar que a produção não agradou o público, a linguagem híbrida utilizada na novela, mesclando cultura popular e erudita, teatro, cinema e televisão promoveu seu destaque.
Possuindo como eixo temático central o ódio entre duas famílias, que se desenvolve durante três gerações, a novela também abordou o amor proibido e teceu críticas sociais.
A saga com características atemporais abordava temas relacionados ao contemporâneo. Sua fotografia e figurino não permitiam ao público distinguir em que época a história se desenvolvia. Sem um tempo determinado, ela insere-se no tempo do mundo fantástico.
Para conseguir características que deixassem a época da história indeterminada, a produção da novela oferecia oficinas aos moradores das cidades onde as gravações ocorreriam ao redor do rio São Francisco. As oficinas possuíam como intenção arrecadar vestimentas dos moradores e customizá-las para as personagens da novela.
Segundo a Prof. Dra. Míriam utilizar as vestimentas da população ajudou a construir a mescla de sensação entre passado e presente, fazendo com que os telespectadores se perguntassem sobre a época da história.
Carregada de símbolos, até as roupas possuíam cores específicas para cada personagem. Assim, personagens do núcleo mais abastados usavam cores diferentes dos personagens que eram subalternos.
A partir dos conceitos sobre a morte, narrativas e o poético a pesquisa abordou de que maneira a morte dos personagens foi retratada no decorrer da saga.
O primeiro levantamento sobre as mortes dos personagens foi realizado pela aluna Bruna, que acessando a internet e o portal da Rede Globo (canal que produziu e transmitiu a novela) descobriu que dos 38 personagens considerados fixos, oito perderam suas vidas na trama.
Mostrando as cenas das mortes, o público presente interagiu com as convidadas demonstrando que as cenas comovem e muitas vezes incomodam, pois foram elaboradas propositalmente com alta dramaticidade e poeticidade.
Em todas as cenas em que os personagens morrem é possível observar símbolos que remetem à morte, como animais considerados de mau agouro, músicas e objetos.  Não passou despercebida a relação da morte entre ficção e realidade pelos participantes do encontro, pois as mortes dos atores da novela foram lembradas.
O ator Umberto Magnani Netto, que interpretava o padre Benício, se sentiu mal durante as gravações e veio a óbito posteriormente, em decorrência de um acidente vascular encefálico hemorrágico. E a morte do ator Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos. Domingos, que faleceu ao desaparecer nas águas do rio São Francisco, levantou questionamentos entre o público presente, já que a semelhança de sua morte com a história de seu personagem é evidente.
A morte dos atores, principalmente de Montagner, tornou-se tabu na época, levando o público da novela a criar várias explicações de como certos assuntos, talvez não devam ser abordados pela ficção.
Durante a fala das convidadas evidenciou-se que a novela por toda sua poeticidade pode promover camadas distintas de interpretação, sendo alternada conforme a compreensão simbólica de cada indivíduo. Assim, as narrativas poéticas podem transformar seu público. Mesmo quando ocorre o incômodo perante uma cena, isso significa que, de alguma maneira, a narrativa afetou o telespectador.    
Como não conseguimos compreender a morte, pois não sabemos o que acontece após o morrer, as pesquisadoras entendem que: “Para narrar o inenarrável resta apenas a metáfora, o simbólico, o mítico e o poético”, como foi observado na novela O Velho Chico. 
O Cinepós terá um novo encontro em outubro, informações como data, horário e local serão divulgadas pela Universidade de Sorocaba por meio das redes sociais.

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